Carbonarismo

Giulio escreve à sua querida Gioconda.

Gioconda,

Sinto sua falta. As cartas que trocávamos, as lágrimas e os sorrisos que tínhamos ao lê-las e relê-las… Tanta coisa aconteceu nesses anos, é impossível deixar que isso se apague. Antes de saber do seu estado, algo me dizia que você estava diferente. Não recebi resposta da minha última carta, creio que você esteja desanimada para respondê-la. Eu estou preocupado. Não vejo mais seus olhos na minha mente, a única coisa que vejo é uma estátua sem olhos e cor, cuja boca está tapada por seis pares de mãos frias e brancas.
Não compreendo nada nas minhas visões, estão todas confusas e embaralhadas. Às vezes sinto uma grande vontade de remover as mãos da estátua, outras sinto que sem elas a escultura se desamparará.
Não quero jamais que se esqueça de nós. Não quero que perca sua mania de escrever compulsivamente, mesmo que não leia o que escreva (como costumava fazer), apenas desabafe no que você sabe fazer de melhor. Viaje nos seus problemas, voe nas tristezas e mergulhe de vez no melancólico anoitecer da segunda-feira. Enfrente-os. Afinal, você é a Gioconda. Minha Gioconda. A Gioconda que nunca pára. A Gioconda que nunca é nunca.

“Deixa
A vida pra lá
Pra variar
Que a hora é nossa
Nesse lugar
A noite é tão linda
Que eu vou ficar
É bom ser menina
Na varanda, na varanda…”

Tiê

Significado das Nuvens

As nuvens para um aspirante a astrônomo é sem dúvida um empecilho nas observações estelares. No entanto, aquele que se diverte com elas não pode considerá-las maléficas. Afinal, o que seria dos homens se o seu trabalho e a sua paixão (sobretudo esta segunda) não lhe desse sequer um momento para reflexão pessoal e contemplação espiritual? Sem dúvida, o excesso poderia causar-lhe certa tontura.
Recentemente obtive esta experiência de uma forma abstrata, em um céu aparentemente forjado (ou tresloucado, seja como for). Senti-lo sufocar a minha visão com a força de um furacão e a ausência dos astros me fez transbordar de pavor. É como se enquanto você procura as coisas mais lindas que já viu, percebe que elas já não existem mais ou estão camufladas pela alva repreensão dos negrumes das nuvens, embora seja assim uma forma contraditória de descrevê-las, não vejo outra para explicar o fato de elas serem brancas e sufocarem com a competência de uma fumaça negra.
Porém, ao acalmar-se e acostumar-se ao movimento falsário das nuvens, ora enegrecidas, apontando uma tempestade em um dia frio, ora brancas e monótonas, pouco úmidas, você se depara com uma formação de desenhos e histórias que se entrelaçam e se mesclam, ao mesmo tempo em que oculta uma vez ou outra o céu estrelado ou ensolarado, com o qual o pobre amigo das estrelas não pode ter sempre as conversas que gostaria.
É compreensível, portanto, que o amante nem sempre consegue ser plenamente amável; ou o empregado sempre dedicado; ou o estudante sempre estudioso; ou o astrônomo sempre observador do espaço. O que se pode esperar é que se deixe passar as nuvens, que o céu apareça novamente e que as próximas nuvens acalentem os anseios que virão.

Nudez Imprópria

Acomodo meu coração no centro esquerdo do peito, como uma peça de relógio. Aos poucos, monto meus ossos com a precisão de um cirurgião. Minha pele eu visto com a rapidez de uma cobra, ao sibilar. Meus membros calço forçadamente. Minha cabeça acoplo ao corpo e meus olhos se abrem… Minha boca enrubesce e meu nariz afoga-se no doce inverno. Abro as portas, lembro-me das orelhas. Corro, pego-as e volto à rua. O coração começa a bater, minha pele congela-se e meus membros se movimentam silenciosamente, graciosos na aragem cortante do dia nublado.
A vereda se estreita, chego a um cruzamento. Encontro pessoas. Não as conheço, não consigo enxergá-las muito bem. Atravesso e sigo adiante, onde elas não tencionam passar. Faço curvas, desço e subo escarpes. Sinto as peças se movimentando, não sinto nada, além disso.
Fecho os olhos e abro os braços. Fecho os braços e abro os olhos… Nada sinto. Continuo a correr, não posso deixar que tudo se desmonte novamente. Preciso sentir o calor.
Avisto o mar e me precipito sobre o cais abandonado. Mergulho como um peixe e, como ele, consigo respirar harmoniosamente debaixo d’água. Nada sinto.
Volto a correr, não estou molhado. Abro os braços, não me desequilibro. Passo pelo cruzamento, não sou reconhecido. Volto para casa, não sinto minhas orelhas. Retiro meu coração, minha pele, meus membros, minha cabeça, fecho os olhos e acinzento meus lábios. Olho o espelho e nada vejo.
Deduzo: estou nu. Sinto-me razoavelmente bem, não exageradamente feliz, mas bem. Deito na cama, sinto minha voz, meus pêlos e meu respirar. Sinto-me.
Estou em plena nudez e me sinto, como nunca me senti em toda a minha vida. Sinto meu ser se contrair e se excitar, como um pobre pagão, não mais que o necessário. Sinto tão pouco e tanta coisa. Sinto que tudo mudou e eu sou… Eu sou o meu espírito.

O que dizer das mães?

Mães são como
Casas
Abrigos inacabáveis

São como
Muralhas
Prontas para defender seu precioso interior
Com toda a rigidez de seus magníficos tijolos

Mães são como
Campos macios e esverdeados
Que fornecem curiosidade suficiente
para prender seus visitantes eternamente em seus encantos naturais

Mães são como
Flores
Amarelas
Rosas
Vermelhas
São lindas

Mães são
Mulheres tangíveis
Impossível esquecer,
Fáceis de amar
Difíceis de entender

Mães são como
Nós
Eternas crianças
Frágeis e dependentes
Presas ao cordão umbilical

Mães são feitas de
Amor

26/02/11

Os Meus Quinze Anos

Meus primeiros quinze anos já se foram. Foram bons, ruins, intensos, monótonos, clichês, felizes e tristes. Mas já se foram. Eu não brinco mais com os carrinhos, não encaro a vida com a mesma ingenuidade de antes, não sou mais uma criança.
Quinze… Quinze vezes feliz, quinze chances de se apaixonar. Eu já tive, sim, quinze amores de verão. Quinze alvoradas memoráveis e outros quinze entardeceres de pura magia. Quinze estrelas preferidas já me fizeram companhia, assim como quinze pomposas nuvens se aglomeraram na minha imaginação, personificadas como pássaros encantados ou simplesmente nuvens. Quinze voluptuosos gozos juvenis, quinze beliscões infantis.
Quinze anos — ou simplesmente uma década e meia. Seja lá qual for a designação que derem, é um tempo relativamente longo pra mim. Mas uma coisa realmente excede esse número: os corações que conheci. Seja em um, dois ou três anos destes, ou até mesmo em todos eles, e eles sabem que se incluem — ou não — nessa minha estimativa. Mais de quinze motivos para viver eu tenho hoje, mais de quinze horas de sono eu dormi, mais de quinze vezes direi: amo crescer!

Desenredos de Fim de Ano

Eu me encontro em desespero. É você de novo, meu amigo tempo, por que ages assim? Por quê? Sinto meu coração se apertando, rachando e endurecendo. Já não sei o que fazer.
Por muitas vezes tentei bloqueá-lo, impedir seu progresso. Mas como nós humanos somos idiotas a ponto de pensar que haverá uma segunda chance, uma nova oportunidade de voltar e fazer tudo de novo.
Quando vamos aprender que a vida é agora? Quando vamos sorrir ao invés de chorar? Quando vamos parar de nos arrepender? Quando vamos… Viver? Quando… Um dia.
É nossa voraz vontade de ocupar-nos do que é construtivo que nos arrepende dos atos já efetivados, contudo estamos enganados. Toda ocupação deve ser válida, pois perto da extinção, do fim do tempo, do relógio imóvel, é sim melhor uma má ocupação a uma não ocupação.
Mover-se e tropeçar é melhor do que estar parado. E por estar em movimento agora posso sentir o quanto eu perdi estando imóvel.

Nota: escrito no dia 31/12/2010

Depoimento ao Meu Barco

Eu quero tanto abrir os seus olhos
porque eu preciso que você olhe dentro de mim.

O fiz hoje, na proa, na popa, no convés, na vela, nas cabines… Esse é o barco do meu amor, que eu havia esquecido em algum porto setentrional, onde meus olhos (agora olhos murchos de vergonha e molhados de arrependimento) o vê tão distante, eu aqui sem meus batéis para podê-lo alcançar, mas tendo a certeza de ter descoberto seu valor jovial, fumegante e incandescente, que me consome as forças. Queria eu suprir essa angústia infindável e vê-lo novamente à minha frente, no meu cais. Oh barco imponente, você não sabe a saudade que sinto. Não sabe. Eu tenho tanto para lhe dar agora, tantas aventuras nos mares caudalosos, tantos mapas para traçar, tantos e tantos rios de lágrimas para derramar, tanta coisa!
A minha baía já não é mais a mesma sem você, meus cabos já não o cercam como antes, estão desolados. Eu posso aguardar o seu retorno, e vou fazê-lo como ninguém jamais fará, só desconheço o meu estado neste dia. Sorrir ou chorar? Adentrar ou hesitar? Em seu casco envelhecido, em suas tiras de bétula envernizadas, é nelas que eu almejo agora toda uma nova vida. Você me aceita? Me aceita depois de tanto tempo perdido? Deixa-me alçar vela e voar como se tudo conspirasse para o nosso progresso nesse novo mar que se abre? Eu ficaria tão feliz. Tão feliz. Estou tão triste. Tão triste. Tão apaixonado… apaixonado.
Até pareço um marujo inexperiente. Talvez eu seja.

Chove Suor

Mediante ao entardecer chuvoso da capital, o pobre ciclista se equilibrava em meio às poças da rua. Sua agilidade era fantástica, as manobras precisas e sua destreza um tanto demasiada. Não era de se espantar que um vendedor de pães pudesse coagir seu meio de transporte e trabalho de forma tão peculiar. Com sua buzina aguda, estridente, os passos se desconjuntavam ao seu redor, procuravam-no para solicitar-lhe uma dúzia disso, meia daquilo “Veja-me meia dúzia do francês” ou ainda “eu quero três rosquinhas” diziam os fregueses. Aqueles que não se contentavam com os pães tradicionais, os de gostos mais requintados e adocicados, ansiavam por seus sonhos inigualáveis, que jamais causavam decepção, fazendo jus a alcunha que recebiam: água na boca. Os sonhos eram recheados, macios, novos e seu açúcar fino só atraía ainda mais a clientela, sempre muito satisfeita. O padeiro não se desesperava, atendia a todos com a mesma atenção e cortesia de um balconista, descontraído a sussurrar suas gracinhas e a ceder vez ou outra um choro de trigo.
Mas a chuva era intragável. Com sua força, molhava mais e mais o pobre trabalhador que lá ia levando o pão de cada dia, o sustento do bairro pelas manhãs. Mas, ainda que a chuva não se interrompesse, ainda que o sol não surgisse de lá de trás das encharcadas nuvens cinzentas, ainda assim, ele continuava a sorrir, ganhando o pão, vendendo o pão, ganhando a vida, vendendo a vida. E as poças já nem existiam em seu caminho, eram varridas por seu empenho. A água não tinha a força de antes, o sol parecia até sorrir envergonhado.
Seguindo seu itinerário caudaloso, ele não se incomodava em receber os vocativos que o meio comum lhe dava “ô da bicicleta, espere um pouco!”, “ô da cesta, venha cá!” e até “ó o pão aqui ó!”. Sentia-se feliz em ver a boca alheia aspirar sua labuta. E sua labuta incendiava todos os dias as casas das famílias do bairro do Jardim Ângela, algumas onde o pão era o único alimento, outras onde o pão era um dos componentes alimentares, e ainda, aquelas onde o pão mofava de velhice em uma gaveta empoeirada.
O valor das coisas boas tem lá suas divergências.