Giulio escreve à sua querida Gioconda.
Gioconda,
Sinto sua falta. As cartas que trocávamos, as lágrimas e os sorrisos que tínhamos ao lê-las e relê-las… Tanta coisa aconteceu nesses anos, é impossível deixar que isso se apague. Antes de saber do seu estado, algo me dizia que você estava diferente. Não recebi resposta da minha última carta, creio que você esteja desanimada para respondê-la. Eu estou preocupado. Não vejo mais seus olhos na minha mente, a única coisa que vejo é uma estátua sem olhos e cor, cuja boca está tapada por seis pares de mãos frias e brancas.
Não compreendo nada nas minhas visões, estão todas confusas e embaralhadas. Às vezes sinto uma grande vontade de remover as mãos da estátua, outras sinto que sem elas a escultura se desamparará.
Não quero jamais que se esqueça de nós. Não quero que perca sua mania de escrever compulsivamente, mesmo que não leia o que escreva (como costumava fazer), apenas desabafe no que você sabe fazer de melhor. Viaje nos seus problemas, voe nas tristezas e mergulhe de vez no melancólico anoitecer da segunda-feira. Enfrente-os. Afinal, você é a Gioconda. Minha Gioconda. A Gioconda que nunca pára. A Gioconda que nunca é nunca.
“Deixa
A vida pra lá
Pra variar
Que a hora é nossa
Nesse lugar
A noite é tão linda
Que eu vou ficar
É bom ser menina
Na varanda, na varanda…”Tiê
