Carbonarismo

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Giulio escreve à sua querida Gioconda.

Gioconda,

Sinto sua falta. As cartas que trocávamos, as lágrimas e os sorrisos que tínhamos ao lê-las e relê-las… Tanta coisa aconteceu nesses anos, é impossível deixar que isso se apague. Antes de saber do seu estado, algo me dizia que você estava diferente. Não recebi resposta da minha última carta, creio que você esteja desanimada para respondê-la. Eu estou preocupado. Não vejo mais seus olhos na minha mente, a única coisa que vejo é uma estátua sem olhos e cor, cuja boca está tapada por seis pares de mãos frias e brancas.
Não compreendo nada nas minhas visões, estão todas confusas e embaralhadas. Às vezes sinto uma grande vontade de remover as mãos da estátua, outras sinto que sem elas a escultura se desamparará.
Não quero jamais que se esqueça de nós. Não quero que perca sua mania de escrever compulsivamente, mesmo que não leia o que escreva (como costumava fazer), apenas desabafe no que você sabe fazer de melhor. Viaje nos seus problemas, voe nas tristezas e mergulhe de vez no melancólico anoitecer da segunda-feira. Enfrente-os. Afinal, você é a Gioconda. Minha Gioconda. A Gioconda que nunca pára. A Gioconda que nunca é nunca.

“Deixa
A vida pra lá
Pra variar
Que a hora é nossa
Nesse lugar
A noite é tão linda
Que eu vou ficar
É bom ser menina
Na varanda, na varanda…”

Tiê

Nudez Imprópria

Acomodo meu coração no centro esquerdo do peito, como uma peça de relógio. Aos poucos, monto meus ossos com a precisão de um cirurgião. Minha pele eu visto com a rapidez de uma cobra, ao sibilar. Meus membros calço forçadamente. Minha cabeça acoplo ao corpo e meus olhos se abrem… Minha boca enrubesce e meu nariz afoga-se no doce inverno. Abro as portas, lembro-me das orelhas. Corro, pego-as e volto à rua. O coração começa a bater, minha pele congela-se e meus membros se movimentam silenciosamente, graciosos na aragem cortante do dia nublado.
A vereda se estreita, chego a um cruzamento. Encontro pessoas. Não as conheço, não consigo enxergá-las muito bem. Atravesso e sigo adiante, onde elas não tencionam passar. Faço curvas, desço e subo escarpes. Sinto as peças se movimentando, não sinto nada, além disso.
Fecho os olhos e abro os braços. Fecho os braços e abro os olhos… Nada sinto. Continuo a correr, não posso deixar que tudo se desmonte novamente. Preciso sentir o calor.
Avisto o mar e me precipito sobre o cais abandonado. Mergulho como um peixe e, como ele, consigo respirar harmoniosamente debaixo d’água. Nada sinto.
Volto a correr, não estou molhado. Abro os braços, não me desequilibro. Passo pelo cruzamento, não sou reconhecido. Volto para casa, não sinto minhas orelhas. Retiro meu coração, minha pele, meus membros, minha cabeça, fecho os olhos e acinzento meus lábios. Olho o espelho e nada vejo.
Deduzo: estou nu. Sinto-me razoavelmente bem, não exageradamente feliz, mas bem. Deito na cama, sinto minha voz, meus pêlos e meu respirar. Sinto-me.
Estou em plena nudez e me sinto, como nunca me senti em toda a minha vida. Sinto meu ser se contrair e se excitar, como um pobre pagão, não mais que o necessário. Sinto tão pouco e tanta coisa. Sinto que tudo mudou e eu sou… Eu sou o meu espírito.

Depoimento ao Meu Barco

Eu quero tanto abrir os seus olhos
porque eu preciso que você olhe dentro de mim.

O fiz hoje, na proa, na popa, no convés, na vela, nas cabines… Esse é o barco do meu amor, que eu havia esquecido em algum porto setentrional, onde meus olhos (agora olhos murchos de vergonha e molhados de arrependimento) o vê tão distante, eu aqui sem meus batéis para podê-lo alcançar, mas tendo a certeza de ter descoberto seu valor jovial, fumegante e incandescente, que me consome as forças. Queria eu suprir essa angústia infindável e vê-lo novamente à minha frente, no meu cais. Oh barco imponente, você não sabe a saudade que sinto. Não sabe. Eu tenho tanto para lhe dar agora, tantas aventuras nos mares caudalosos, tantos mapas para traçar, tantos e tantos rios de lágrimas para derramar, tanta coisa!
A minha baía já não é mais a mesma sem você, meus cabos já não o cercam como antes, estão desolados. Eu posso aguardar o seu retorno, e vou fazê-lo como ninguém jamais fará, só desconheço o meu estado neste dia. Sorrir ou chorar? Adentrar ou hesitar? Em seu casco envelhecido, em suas tiras de bétula envernizadas, é nelas que eu almejo agora toda uma nova vida. Você me aceita? Me aceita depois de tanto tempo perdido? Deixa-me alçar vela e voar como se tudo conspirasse para o nosso progresso nesse novo mar que se abre? Eu ficaria tão feliz. Tão feliz. Estou tão triste. Tão triste. Tão apaixonado… apaixonado.
Até pareço um marujo inexperiente. Talvez eu seja.

Carta à Gioconda

Gioconda, minha querida.

Eu ontem reli nossas conversas intercaladas pelos nossos debates políticos. Não pude deixar a curiosidade e saudade de lado e saber como andam as coisas em Paris.
Tenho ficado muito pouco tempo em frente ao computador, logo eu viabilizei a hipótese de que uma carta no século XXI talvez não chegasse a você. Mas, se você estiver lendo isso, deve estar rindo da minha cara por eu ser tão pessimista assim. De qualquer modo, eu tenho certeza de que as letras estarão borradas então eu justifico com isso essa minha grafia tão espaçada.
Está sabendo que eu me demiti da editora? Não suportava mais tantos escritos. Você pode imaginar como eu às vezes fico distante desse meio exato de ver a leitura. O Júlio até me aconselhou a pedir as férias que eles me deviam, mas eu optei por outra escolha — como você pôde ver.
Espero que as crianças estejam bem. Sinto saudades das brincadeiras que tínhamos. Tem certeza de que não quer visitar-me nas férias? Eu ficaria muito feliz, você sabe.
Além disso, precisamos colocar as conversas em dia. Você não me contou sobre os redatores franceses que você conheceu por aí. Fico curioso em saber!
E nem parece que se passaram dois anos, se eu não relevasse a saudade que cresce.
Estou mandando umas fotos para que você possa trocar figurinhas comigo. Espero receber algumas suas também.

O Seu Amigo.

Assim

escrito por Kaio Cassio e Inaiara Gonçalves

Em uma superfície cristalina e silenciosa, planavam dois barquinhos de papel — desses feitos com jornal matinal, origami. Despertava, seguido de uma quarta-feira barulhenta e cansativa, o lago.
O lago estava lá. Intacto. O vento soprava e levava os dois barquinhos de papel para qualquer sentido. Não importa que lago era esse e nem porque existiam dois barquinhos de papel em sua superfície, o que importava é que eles estavam ali, juntos.
Nas margens, d’ onde narcisos brotavam lívidos, a relva também despertava guarnecida de gotículas de orvalho fresco. Mas o lago também tinha, ainda que estivessem preguiçosos, pássaros. E era uma verdadeira legião deles, multicoloridos. Emplumados, cantavam como uma festa sambada, seus bicos afinados e seu rechonchudo tórax, amarelo. Diversas vezes, um peixinho azul vinha até a superfície quebrar o espelho d’água, formando diversas ondinhas que se dissiparam até a margem, crispando-a.
E tudo isso, formava um local mágico, permeado de cores, tons, sombras. Quanto às sombras, não eram qualquer uma, eram as sombras das árvores que ficavam à margem do lago. Nunca tinha visto árvores com uma vivacidade tão verdadeira, e mesmo as mais velhas, elas possuíam algo tão peculiar em suas folhas que é impossível passar ao papel o que eu sentia e via naquele momento.
Quando por fim os barquinhos beijaram a margem do lago circundado de verde (puro verde, verde intenso e intacto), era como se um vendaval tivesse despertado. Como se os barquinhos fossem válvulas de uma hidroelétrica que despertava a sua fúria, ora molhados, ora violentos, em um ritmo acelerado e, ao mesmo tempo, em câmera lenta. Sentia seu cheiro. Cheiro de chuva no deserto. Foi quando tomei posse do que estava acontecendo.
Tomei consciência de que o vendaval já havia passado. A questão é que nem todo vendaval é ruim, e no fundo esse vendaval fez muito bem aos barquinhos, naquele momento. Por alguns instantes parecia mesmo que o local em que os barquinhos estavam era mágico, pois até o vendaval diferia de qualquer outro vendaval ocorrido no mundo, pois esse não possuía vento. Esse foi um vendaval único. Intenso e singelo. O problema é que são nas coisas mais singelas que eu enxergo a beleza, como Cecília Meireles mesmo disse: “(…) uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante da minha janela, e outros finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.” E talvez um dos barquinhos precisasse olhar dessa forma, para que nesse momento da narrativa quando o vento voltava a soprar calmamente, esse barquinho não fosse embora.
Tal era a incapacidade de permanecerem juntos que, mesmo os barquinhos tendo, na alvorada, uma grande luta pela frente — pois eu vos digo que o pé d’água não cessara tão cedo, pois não só da chuva vinham as gotas, como também da fina proa dos barquinhos, vazados ao fundo. Terminada a viagem, a aventura, por assim dizer, o psicótico vento oeste carregou finalmente um deles, tendo como intuito fazer o que a própria natureza desejava, para infelicidade dos itinerantes que ali queriam viver e viajar, juntos naquelas torrentes incessantes. Há males que vêm para o bem.

Sonhos de uma Vida

Diante de uma quantidade absurdamente grande de construções verticais, indiferente, planava lá no alto um objeto não identificado. Em suas extremidades, um tecido azulado vazava pelo colchão forrado, balançando incessantemente em constantes mudanças direcionais causadas pelo vento ocioso. Era uma cama flutuante, que de longe se identificaria como uma grande porta de madeira lustrada. Era absolutamente impossível, uma das pernas tinha um formato em espiral, a outra imitava a lua crescente — visivelmente abalada pela projeção inadequada. As demais seguiam em formas comuns, embora ganhassem rodas nas pontas. O lençol se moveu e de dentro um garoto apareceu assustado, firmando-se na cabeceira da cama. O rosto atordoado tomou uma cor empalidecida, mas que logo se desfez retomando ao tom rosado de antes. Ele estava dormindo e parecia não entender aquela ilusão. Surgiu então um relapso de irresponsabilidade em suas veias que o fez levantar de braços abertos e curtir o sonho agradável. Mais uma vez, sonhava com o impossível. O relapso de irresponsabilidade fora compreendido logo, pois havia descoberto que estava sonhando. Resolveu curtir a ilusão enquanto durasse.
A realidade da alucinação era incrível. De lá de cima ele conseguia enxergar as pessoas trabalhando nos escritórios, os prédios residenciais vez ou outra se abriam para o céu e ele investigava a vida das pessoas. A miragem durou tempo demais e ele passou a ter receio de estar diante da vida como ela é. Seria possível ele viver sonhando e sonhasse vivendo? Será que não estava alucinado demais com a quantidade de sonhos que tivera a ponto de esquecer-se da vida como ela é? Suas duas realidades se fundiam com harmoniosas raízes — o consciente e inconsciente se envolviam de tal forma que era impossível saber a qual dos mundos ele pertencia. A noite acima dos braços abertos era implacável. Obscura, escondia a lua sob majestosas nuvens. O menino se debruçou para ver melhor o mundo lá embaixo. Um executivo apontava para sua direção, abismado. O jovem se escondeu dentro das cobertas deixando uma única fresta por onde pudesse visualizar o homem. Ele se dispersou da cama flutuante e continuava apontando para o céu. Os olhos do jovem arregalaram-se com a atitude do homem. Como não pudera vê-lo ali, pairando sob o céu negro? Concluíra que estava invisível, pois o moço engravatado estava sobressaltando o tempo ruim, faltava pouco para que as gotas pinicassem sua pele, escorrendo pela face de cor nívea. Quando por fim a primeira gota tocou-lhe, ele despertou afobado.

Mudar de Estação

No rádio, músicas que expressam sentimentos e desejos que jamais senti. Músicas que por diversas vezes o “replay” apertei, melodias tão suáveis que me fazem voar, flutuar em um universo de mentiras que minha própria mente cuidou de criar. E agora eu consigo ver que não vale apena viver a vida dos outros, ou os sentimentos dos outros — como já dizia minha mãe — eu tinha que encarar a realidade. Nada mudou até hoje, e me pergunto agora: de que adiantaram todas aquelas canções repletas de sentimentos que para mim eram impossíveis se no fim eu continuo o mesmo? Sozinho em uma rua escura, onde homens encapuzados e arrogantes que ficam às sombras me fazem críticas maldosas com seus comentários amargos, me julgam da ponta do pé a cabeça e, eu, indefeso, permaneço junto a eles, nas sombras que os prédios aqui e acolá me proporcionam, um refúgio sem fim no meio da selva de pedra. Sozinho com um rádio me contando mentiras em rimas. Está na hora de mudar de estação…