Carbonarismo

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O Discurso do Palhaço

Aglomerações aguçadas de pessoas se aprontavam, fixando os olhares no ponto culminante daquela reunião: um palanque improvisado, guarnecido de altos seguranças, que reprimiam os que ousavam tocar alguma parte do corpo na tribuna. Estavam, todos, extremamente preenchidos de ansiedade, pois quem discursaria, minutos depois, poderia ser ninguém menos que o seu candidato à presidência (ou possivelmente já o era).
O circo formado, marionetes prontas, falsos cortejos de boas-vindas dados, corações intencionalmente acelerados. O rosto limpo, microfones testados, luzes checadas. Animais enjaulados, tudo correndo bem. O palhaço, sem nariz avermelhado, chapéu colorido e sapatos extravagantes, mais parecia um homem da plateia. Ele subia as escadas mecanicamente, agia de modo formal. Era um palhaço triste… O máximo que expressava era um reflexo de um sorriso falso, tirado à força de uma família próxima que acenava freneticamente para o candidato.
Trazia junto à pompa do seu paletó de segunda uma caneta que usaria para grifar as partes do roteiro, vulgo discurso, assim que ele os narrasse, dissesse… Excepcionalmente, um breve gesto, parte de uma postura defensiva, foi dado. Ele inicia com uma voz rouca, como se não tivesse dito nada nas últimas duas horas.
— Caros companheiros! É com enorme honr… — um barulho ensurdecedor irrompeu o espaço onde antes ocupava a voz do homem. O som de engrenagens travando e entrando em colapso, convergindo entre si. A desordem de um relógio… O som se propagava pelo recinto abafado. Os ocupantes se entreolhavam, procurando um relógio cuco que tinha se desordenado. O ruído aumentava cada vez mais estridente e rangedor. Algo estava se quebrando por inteiro, enquanto o homem que discursava continuava de boca aberta, como se estivesse petrificado diante do ruído. Afinal, depois de um tempo, não havia dúvidas de que era ele quem reproduzia os estrépitos tão embaraçosos e confusos, que logo implodiram num estampido que o fez saltar os olhos, de onde penderam duas molas, logo atrás dos globos-oculares.
Silenciaram-se os gritos histéricos da primeira fileira de cadeiras, mais próximas do palanque.
Todos esperavam alguma explicação do que estava acontecendo, ou ficariam ali parados para ver o que aconteceria a seguir, na esperança de que a sequência dos fatos fosse explicar o que era aquilo posicionado lá na frente, com um microfone imóvel entre os dedos e uma caneta pendendo na outra mão.
O que aconteceu a seguir foi uma voragem de palavras, expressões e gestos. Enquanto as pessoas iam se recompondo do susto, o homem, ou o que quer que tenha sido aquilo, iniciou de súbito o que pareceu uma reza… Que se tornou em ladainha.
Expurgava palavras soltas, tudo que dizia em excesso. Como uma explosão, tudo saía dele desordenadamente. A boca mantinha-se aberta e a língua se movia para regurgitar tudo que ele pretensiosamente dizia, para confortar ou figurar seus discursos e apresentações.
— EU SOU UM PALHAÇO TRISTE. PROMETO, NOMEIO, DIVIDO, INVISTO, TRABALHO, ASSINO, ENTRETO, AJUDO, ACONSELHO. PERSISTÊNCIA, DESEJOS, ANSEIOS, GLÓRIA! MÁQUINA, CÉREBRO SÓRDIDO, CORAÇÃO ENVIESADO. EU SOU UM PALHAÇO TRISTE. QUEBRADO, ESTÚPIDO, EU, PÚBLICO, FAÇO — Um cataclismo… tudo por ele era sorvido, tudo por ele era dissipado. Um fim de carreira, uma explosão de verdade. Sugaram-lhe a cara de pau, a mentira. Ele continuava a berrar palavras que nunca mais diria, explodira, porque a única coisa que não se esvaíra, nunca existiu dentro de si. Um homem quebrado, um palhaço triste. Uma mentira apodrecida. Uma verdade sem frutos. Um político sincero.
Ao fim da gritaria e das últimas mentiras ensaiadas para um debate político, ele desmontou em cima do palco, sendo agora um vazio de tramoias e engenhocas que tinham sido criadas a molde de um candidato ideal. O que ele tinha sido, o porquê da sua destruição… tudo ficou vago até que uma sugestão bastante esclarecedora irrompeu da reunião de pessoas:
— Uma máquina! O homem cria uma máquina para servir-se dela, para que ela o obedeça. Mas ele não conta que sua criação ganhe vida. A inteligência do homem tem pernas próprias e nem sempre caminha a seu favor. A criação não se assemelha a destruição, de modo que elas não podem ser igualmente honrosas! — E as vozes silenciaram-se, assentindo.

Lacônica História

Vazio. Não mais que um pote vazio de desespero, de sobrevivência.
Cheio. Mais que cheio de límpida tranquilidade, de vivência.
Às vezes, um pote extremamente mediano de paciência e compreensão, outras daqueles que transbordam amor e compaixão.
Feliz.
Ama poder dizer que está assim, ama sua liberdade. Ama-a a ponto de abdicar de tudo que o causa regozijo, ama-a mais que a própria vida, afinal, o que seria dela sem a sua liberdade?
Amava dizer que entendia português, que tinha dotes culinários, artísticos. Amava achar que era um completo idiota, amava achar qualquer tolice que quisesse a seu respeito. Amava odiar-se, odiá-lo, odiar-te, odiar-me.
Ele amou durante sua vida toda, todas suas atitudes, os seus pensamentos, as pessoas que achava devido, as conquistas e as desventuras. Todos os dias, todas as semanas, todos os anos. Amou amar qualquer coisa. Amar durante sua vida. Amar a sua vida. E amar isso.
Ele amou.
Ele viveu.
Ele morreu.
Mas não amou a solidão de seu funeral indigente.

Chove Suor

Mediante ao entardecer chuvoso da capital, o pobre ciclista se equilibrava em meio às poças da rua. Sua agilidade era fantástica, as manobras precisas e sua destreza um tanto demasiada. Não era de se espantar que um vendedor de pães pudesse coagir seu meio de transporte e trabalho de forma tão peculiar. Com sua buzina aguda, estridente, os passos se desconjuntavam ao seu redor, procuravam-no para solicitar-lhe uma dúzia disso, meia daquilo “Veja-me meia dúzia do francês” ou ainda “eu quero três rosquinhas” diziam os fregueses. Aqueles que não se contentavam com os pães tradicionais, os de gostos mais requintados e adocicados, ansiavam por seus sonhos inigualáveis, que jamais causavam decepção, fazendo jus a alcunha que recebiam: água na boca. Os sonhos eram recheados, macios, novos e seu açúcar fino só atraía ainda mais a clientela, sempre muito satisfeita. O padeiro não se desesperava, atendia a todos com a mesma atenção e cortesia de um balconista, descontraído a sussurrar suas gracinhas e a ceder vez ou outra um choro de trigo.
Mas a chuva era intragável. Com sua força, molhava mais e mais o pobre trabalhador que lá ia levando o pão de cada dia, o sustento do bairro pelas manhãs. Mas, ainda que a chuva não se interrompesse, ainda que o sol não surgisse de lá de trás das encharcadas nuvens cinzentas, ainda assim, ele continuava a sorrir, ganhando o pão, vendendo o pão, ganhando a vida, vendendo a vida. E as poças já nem existiam em seu caminho, eram varridas por seu empenho. A água não tinha a força de antes, o sol parecia até sorrir envergonhado.
Seguindo seu itinerário caudaloso, ele não se incomodava em receber os vocativos que o meio comum lhe dava “ô da bicicleta, espere um pouco!”, “ô da cesta, venha cá!” e até “ó o pão aqui ó!”. Sentia-se feliz em ver a boca alheia aspirar sua labuta. E sua labuta incendiava todos os dias as casas das famílias do bairro do Jardim Ângela, algumas onde o pão era o único alimento, outras onde o pão era um dos componentes alimentares, e ainda, aquelas onde o pão mofava de velhice em uma gaveta empoeirada.
O valor das coisas boas tem lá suas divergências.

Nuvens da Noite

And the shadow of the night,
Will embrace the world in grey,
And the moon will set for you.

Estava frio, eu despertava de mais um dia à tarde, em meio aos últimos raios solares. Passei a acreditar que a tarde fosse a melhor parte do dia para acordar. Sem as perturbações da manhã agitada das grandes cidades, da vida preocupada dos itinerantes diurnos, do dia iluminado. Eu preferia a noite nublada, a lua oculta e uma rajada de vento cortante.
Mirei o céu, haja vista que após minhas doze horas de sono eu já não conseguia enxergá-lo nitidamente, devido aos inchaços na superfície côncava de meus globo-oculares. O vento era tão gélido, minha orelhas quentes… Realidades tão diferentes, fisicamente. E eu pedindo a Deus para poder voar dali de cima, calculando seriamente a hipótese de um pulo emocionante, embora fosse mais seguro ficar na grama, no solado, em terra firme…
À noite eu pude notar que os olhos haviam recuperado a sua condição inicial, mas já não havia muito o que se ver, não que os poucos raios de antes eram notáveis, mas com certeza mais visíveis.
Reconstrui-me na cozinha, no preparo de um bom chá — um tal chá-mate, que tinha um sabor delicioso e me preenchia como o vapor de uma panela, me aquecendo. Fiquei sentado, no console, esperando a hora exata para sair novamente.
Enfim a lua caiu. Eu tinha pouco tempo. Corri a tempo de vê-los despertar, à espreita. Dizia para mim mesmo: “Como são estranhos esses tais humanos”, voltei para minha toca e dormi. Eram seis horas, já estava com sono.

Detritos da Humanidade

Prolongava-se numa rua deserta, em plena madrugada de sexta, a obscura lua nova. Não era possível distinguir um palmo sequer à frente e o único ponto de luz vinha de um prédio assolado por holofotes. Não se podia ouvir, também pudera: um choro incessante e agonizante não cessava. Bastava um soluço de descanso e o alarido voltava a ecoar pela alameda vazia. Subitamente calou-se, após longos minutos.
Instantes mais tarde, no decorrer da madrugada, o dia clareava. Parecia mais uma sexta-feira daquelas e em poucos minutos seria possível ver pessoas agitando-se aqui e ali, seja para trabalhar, estudar ou descansar do turno da noite. Mas nenhuma dessas figuras irrompera a rua.
A capa se estendia levemente pelo trajeto, sua cabeça coberta pelo capuz e os ratos assolavam-na nos esgotos, frustrados pela presença inconveniente. Trazia nas mãos um saco.
Se olhasse-se fixamente, talvez o manejo de seus pés fizesse com que parte da narina da criatura ficasse visível. Mas naquela escuridão, pouco importava o indivíduo. A questão era: por que se ocultava? Desolado, agora arrastava seus pés até uma caçamba próxima. Os prédios já possuíam um ou dois quadrados iluminados, o dia estava nascendo.
Puxou as mangas de um dos braços e enxugou o rosto, o que pareceu ser uma tentativa de secar as lágrimas (ou qualquer outra coisa que a estivesse incomodando). Então o dia despertou de vez. Gritaram lá de cima.
— Saia daqui seu porco!
Quem quer que fosse não lhe deu atenção.
— Já não basta ocuparem e sujarem nossas ruas, agora passaram a utilizar o lixo dos outros para seus depósitos imundos?
Foi a única vez que a criatura sorriu, embora fosse um sorriso de consolo. Ignorou o homem e depositou seu detrito ali mesmo, sem cerimônias.
Dez horas mais tarde um estardalhaço. Bomba? Tráfico? Armamento? Drogas?
Nada disso. Um coletor encontrara o lixo do mendigo. O bebê ainda respirava.