Carbonarismo

Tag: prosa

“Pã”

Ninguém enxerga as bolhas de sabão depois de um dia de trabalho na cidade cinza. A velocidade dos motores inibe o inesperado cumprimento de um desconhecido. Um sorriso da vida perde a verdade, quando está sob o maldito interesse material. A pouca-vergonha é um erro para os sensatos, vale a lei de cada um no seu quadrado. A subjetividade é desprezível. O pouco é muito.

Valores não fazem diferença no mundo, porque o que se é de valor hoje, fora frívolo outrora. E o que é frívolo hoje, tenho esperanças que sejam valores amanhã. Se os meus valores não são nada aos seus olhos esbugalhados é porque você não tem valor algum pra mim. Vice-versa.

Prosa inútil. Nada mudou. As bolhas explodem e as gotículas resvalam na pele. São sentidas. “Vai chover?”, perguntam. “Isto não é chuva”, respondo.

Não é chuva. É amor e você não o viu.

O Discurso do Palhaço

Aglomerações aguçadas de pessoas se aprontavam, fixando os olhares no ponto culminante daquela reunião: um palanque improvisado, guarnecido de altos seguranças, que reprimiam os que ousavam tocar alguma parte do corpo na tribuna. Estavam, todos, extremamente preenchidos de ansiedade, pois quem discursaria, minutos depois, poderia ser ninguém menos que o seu candidato à presidência (ou possivelmente já o era).
O circo formado, marionetes prontas, falsos cortejos de boas-vindas dados, corações intencionalmente acelerados. O rosto limpo, microfones testados, luzes checadas. Animais enjaulados, tudo correndo bem. O palhaço, sem nariz avermelhado, chapéu colorido e sapatos extravagantes, mais parecia um homem da plateia. Ele subia as escadas mecanicamente, agia de modo formal. Era um palhaço triste… O máximo que expressava era um reflexo de um sorriso falso, tirado à força de uma família próxima que acenava freneticamente para o candidato.
Trazia junto à pompa do seu paletó de segunda uma caneta que usaria para grifar as partes do roteiro, vulgo discurso, assim que ele os narrasse, dissesse… Excepcionalmente, um breve gesto, parte de uma postura defensiva, foi dado. Ele inicia com uma voz rouca, como se não tivesse dito nada nas últimas duas horas.
— Caros companheiros! É com enorme honr… — um barulho ensurdecedor irrompeu o espaço onde antes ocupava a voz do homem. O som de engrenagens travando e entrando em colapso, convergindo entre si. A desordem de um relógio… O som se propagava pelo recinto abafado. Os ocupantes se entreolhavam, procurando um relógio cuco que tinha se desordenado. O ruído aumentava cada vez mais estridente e rangedor. Algo estava se quebrando por inteiro, enquanto o homem que discursava continuava de boca aberta, como se estivesse petrificado diante do ruído. Afinal, depois de um tempo, não havia dúvidas de que era ele quem reproduzia os estrépitos tão embaraçosos e confusos, que logo implodiram num estampido que o fez saltar os olhos, de onde penderam duas molas, logo atrás dos globos-oculares.
Silenciaram-se os gritos histéricos da primeira fileira de cadeiras, mais próximas do palanque.
Todos esperavam alguma explicação do que estava acontecendo, ou ficariam ali parados para ver o que aconteceria a seguir, na esperança de que a sequência dos fatos fosse explicar o que era aquilo posicionado lá na frente, com um microfone imóvel entre os dedos e uma caneta pendendo na outra mão.
O que aconteceu a seguir foi uma voragem de palavras, expressões e gestos. Enquanto as pessoas iam se recompondo do susto, o homem, ou o que quer que tenha sido aquilo, iniciou de súbito o que pareceu uma reza… Que se tornou em ladainha.
Expurgava palavras soltas, tudo que dizia em excesso. Como uma explosão, tudo saía dele desordenadamente. A boca mantinha-se aberta e a língua se movia para regurgitar tudo que ele pretensiosamente dizia, para confortar ou figurar seus discursos e apresentações.
— EU SOU UM PALHAÇO TRISTE. PROMETO, NOMEIO, DIVIDO, INVISTO, TRABALHO, ASSINO, ENTRETO, AJUDO, ACONSELHO. PERSISTÊNCIA, DESEJOS, ANSEIOS, GLÓRIA! MÁQUINA, CÉREBRO SÓRDIDO, CORAÇÃO ENVIESADO. EU SOU UM PALHAÇO TRISTE. QUEBRADO, ESTÚPIDO, EU, PÚBLICO, FAÇO — Um cataclismo… tudo por ele era sorvido, tudo por ele era dissipado. Um fim de carreira, uma explosão de verdade. Sugaram-lhe a cara de pau, a mentira. Ele continuava a berrar palavras que nunca mais diria, explodira, porque a única coisa que não se esvaíra, nunca existiu dentro de si. Um homem quebrado, um palhaço triste. Uma mentira apodrecida. Uma verdade sem frutos. Um político sincero.
Ao fim da gritaria e das últimas mentiras ensaiadas para um debate político, ele desmontou em cima do palco, sendo agora um vazio de tramoias e engenhocas que tinham sido criadas a molde de um candidato ideal. O que ele tinha sido, o porquê da sua destruição… tudo ficou vago até que uma sugestão bastante esclarecedora irrompeu da reunião de pessoas:
— Uma máquina! O homem cria uma máquina para servir-se dela, para que ela o obedeça. Mas ele não conta que sua criação ganhe vida. A inteligência do homem tem pernas próprias e nem sempre caminha a seu favor. A criação não se assemelha a destruição, de modo que elas não podem ser igualmente honrosas! — E as vozes silenciaram-se, assentindo.

Às Vésperas

Os velhos não sorriem. Já desfizeram as malas da ignorância e do cansaço num lugar chamado para sempre. Eles trouxeram enfeites falsos, flores que não murcham e não precisam de água. Marcham sempre de seus quartos de comodidade para suas cozinhas de apaziguamento, comem seus pedaços de pão duro do resigno e nas paredes da sua casa lúgubre recolocam suas colunas endurecidas no lugar, esperando um dia não precisar fazê-lo no paletó de madeira — tão próximos e eminentes, aos seus olhos. Figuram sua vida (antes desejada) na televisão da companhia, ouvem o rádio amigo, que infelizmente nunca responde às suas ranzinzas reclamações.
Os velhos trabalham como consumidor exigente em turno integral. Exigem respeito, atenção e dignidade. Educação alheia. Só não exigem que os tornem úteis. Malgrado suas vidas se descabelarem numa simples ida ao mercado onde compram as suas futilidades diárias, iogurtes milagrosos, queijos e carne de soja, eles consideram as suas mesquinharias parte de um ritual divino. Perturbam-se para consegui-las, como se compusessem uma vida agitada. Dançar não é divertimento, é necessidade. E é assim com todos os lazeres, mártir diário necessário.
Ser velho não é uma opção. Mata-se algo de profundo valor dentro de si. Não são assassinos, são desastrados. Caem num universo de extrema fadiga de sorrisos forçados e políticas de educação. Grosseria passa a ser um escudo de gelo. É inevitável não olhar para o espelho e ver que falta tão pouco. Tudo parece simplesmente ter se esvaído. Sentimentos, adrenalina. Qualquer porcaria de consolo não funciona.
Vou dizer que um velho reside em mim. Vou dizer que um pouco do que eu imaginava não imagino mais. Vou dizer que já sei disso, dizer que não ligo. Dizer que não há mais saída. Mas vou estar errado. Vou sorrir. Vou desfazer as minhas malas de compreensão e de disposição, eu vou ficar. Chegarei com meus enfeites de vidro, efêmeros, e minhas flores mortais. Vou morar na casa de doces da bruxa de João e Maria, colher goiaba podre do pé. Vou sonhar! Vou… Não sei. Não sei de nada, dou-me esse direito. Será que assim, cego, eu vejo mais do que velhos sensatos?

Lacônica História

Vazio. Não mais que um pote vazio de desespero, de sobrevivência.
Cheio. Mais que cheio de límpida tranquilidade, de vivência.
Às vezes, um pote extremamente mediano de paciência e compreensão, outras daqueles que transbordam amor e compaixão.
Feliz.
Ama poder dizer que está assim, ama sua liberdade. Ama-a a ponto de abdicar de tudo que o causa regozijo, ama-a mais que a própria vida, afinal, o que seria dela sem a sua liberdade?
Amava dizer que entendia português, que tinha dotes culinários, artísticos. Amava achar que era um completo idiota, amava achar qualquer tolice que quisesse a seu respeito. Amava odiar-se, odiá-lo, odiar-te, odiar-me.
Ele amou durante sua vida toda, todas suas atitudes, os seus pensamentos, as pessoas que achava devido, as conquistas e as desventuras. Todos os dias, todas as semanas, todos os anos. Amou amar qualquer coisa. Amar durante sua vida. Amar a sua vida. E amar isso.
Ele amou.
Ele viveu.
Ele morreu.
Mas não amou a solidão de seu funeral indigente.

Giulio escreve à sua querida Gioconda.

Gioconda,

Sinto sua falta. As cartas que trocávamos, as lágrimas e os sorrisos que tínhamos ao lê-las e relê-las… Tanta coisa aconteceu nesses anos, é impossível deixar que isso se apague. Antes de saber do seu estado, algo me dizia que você estava diferente. Não recebi resposta da minha última carta, creio que você esteja desanimada para respondê-la. Eu estou preocupado. Não vejo mais seus olhos na minha mente, a única coisa que vejo é uma estátua sem olhos e cor, cuja boca está tapada por seis pares de mãos frias e brancas.
Não compreendo nada nas minhas visões, estão todas confusas e embaralhadas. Às vezes sinto uma grande vontade de remover as mãos da estátua, outras sinto que sem elas a escultura se desamparará.
Não quero jamais que se esqueça de nós. Não quero que perca sua mania de escrever compulsivamente, mesmo que não leia o que escreva (como costumava fazer), apenas desabafe no que você sabe fazer de melhor. Viaje nos seus problemas, voe nas tristezas e mergulhe de vez no melancólico anoitecer da segunda-feira. Enfrente-os. Afinal, você é a Gioconda. Minha Gioconda. A Gioconda que nunca pára. A Gioconda que nunca é nunca.

“Deixa
A vida pra lá
Pra variar
Que a hora é nossa
Nesse lugar
A noite é tão linda
Que eu vou ficar
É bom ser menina
Na varanda, na varanda…”

Tiê

Significado das Nuvens

As nuvens para um aspirante a astrônomo é sem dúvida um empecilho nas observações estelares. No entanto, aquele que se diverte com elas não pode considerá-las maléficas. Afinal, o que seria dos homens se o seu trabalho e a sua paixão (sobretudo esta segunda) não lhe desse sequer um momento para reflexão pessoal e contemplação espiritual? Sem dúvida, o excesso poderia causar-lhe certa tontura.
Recentemente obtive esta experiência de uma forma abstrata, em um céu aparentemente forjado (ou tresloucado, seja como for). Senti-lo sufocar a minha visão com a força de um furacão e a ausência dos astros me fez transbordar de pavor. É como se enquanto você procura as coisas mais lindas que já viu, percebe que elas já não existem mais ou estão camufladas pela alva repreensão dos negrumes das nuvens, embora seja assim uma forma contraditória de descrevê-las, não vejo outra para explicar o fato de elas serem brancas e sufocarem com a competência de uma fumaça negra.
Porém, ao acalmar-se e acostumar-se ao movimento falsário das nuvens, ora enegrecidas, apontando uma tempestade em um dia frio, ora brancas e monótonas, pouco úmidas, você se depara com uma formação de desenhos e histórias que se entrelaçam e se mesclam, ao mesmo tempo em que oculta uma vez ou outra o céu estrelado ou ensolarado, com o qual o pobre amigo das estrelas não pode ter sempre as conversas que gostaria.
É compreensível, portanto, que o amante nem sempre consegue ser plenamente amável; ou o empregado sempre dedicado; ou o estudante sempre estudioso; ou o astrônomo sempre observador do espaço. O que se pode esperar é que se deixe passar as nuvens, que o céu apareça novamente e que as próximas nuvens acalentem os anseios que virão.

Nudez Imprópria

Acomodo meu coração no centro esquerdo do peito, como uma peça de relógio. Aos poucos, monto meus ossos com a precisão de um cirurgião. Minha pele eu visto com a rapidez de uma cobra, ao sibilar. Meus membros calço forçadamente. Minha cabeça acoplo ao corpo e meus olhos se abrem… Minha boca enrubesce e meu nariz afoga-se no doce inverno. Abro as portas, lembro-me das orelhas. Corro, pego-as e volto à rua. O coração começa a bater, minha pele congela-se e meus membros se movimentam silenciosamente, graciosos na aragem cortante do dia nublado.
A vereda se estreita, chego a um cruzamento. Encontro pessoas. Não as conheço, não consigo enxergá-las muito bem. Atravesso e sigo adiante, onde elas não tencionam passar. Faço curvas, desço e subo escarpes. Sinto as peças se movimentando, não sinto nada, além disso.
Fecho os olhos e abro os braços. Fecho os braços e abro os olhos… Nada sinto. Continuo a correr, não posso deixar que tudo se desmonte novamente. Preciso sentir o calor.
Avisto o mar e me precipito sobre o cais abandonado. Mergulho como um peixe e, como ele, consigo respirar harmoniosamente debaixo d’água. Nada sinto.
Volto a correr, não estou molhado. Abro os braços, não me desequilibro. Passo pelo cruzamento, não sou reconhecido. Volto para casa, não sinto minhas orelhas. Retiro meu coração, minha pele, meus membros, minha cabeça, fecho os olhos e acinzento meus lábios. Olho o espelho e nada vejo.
Deduzo: estou nu. Sinto-me razoavelmente bem, não exageradamente feliz, mas bem. Deito na cama, sinto minha voz, meus pêlos e meu respirar. Sinto-me.
Estou em plena nudez e me sinto, como nunca me senti em toda a minha vida. Sinto meu ser se contrair e se excitar, como um pobre pagão, não mais que o necessário. Sinto tão pouco e tanta coisa. Sinto que tudo mudou e eu sou… Eu sou o meu espírito.

Os Meus Quinze Anos

Meus primeiros quinze anos já se foram. Foram bons, ruins, intensos, monótonos, clichês, felizes e tristes. Mas já se foram. Eu não brinco mais com os carrinhos, não encaro a vida com a mesma ingenuidade de antes, não sou mais uma criança.
Quinze… Quinze vezes feliz, quinze chances de se apaixonar. Eu já tive, sim, quinze amores de verão. Quinze alvoradas memoráveis e outros quinze entardeceres de pura magia. Quinze estrelas preferidas já me fizeram companhia, assim como quinze pomposas nuvens se aglomeraram na minha imaginação, personificadas como pássaros encantados ou simplesmente nuvens. Quinze voluptuosos gozos juvenis, quinze beliscões infantis.
Quinze anos — ou simplesmente uma década e meia. Seja lá qual for a designação que derem, é um tempo relativamente longo pra mim. Mas uma coisa realmente excede esse número: os corações que conheci. Seja em um, dois ou três anos destes, ou até mesmo em todos eles, e eles sabem que se incluem — ou não — nessa minha estimativa. Mais de quinze motivos para viver eu tenho hoje, mais de quinze horas de sono eu dormi, mais de quinze vezes direi: amo crescer!